08/11/2026
Mandrágora: a planta mais temida da magia, entre a história e a lenda
O grito, a Bíblia, a Alraune alemã e Shakespeare, e por que ela nunca deve ser usada no corpo
Nenhuma planta tem tantas lendas quanto a mandrágora. A raiz, que lembra um pequeno corpo humano, foi remédio, amuleto, ingrediente de bruxa e prova de feitiçaria. Aparece na Bíblia, em Shakespeare e até em Harry Potter. Mas por trás do mito há uma planta real, e muito perigosa. Aqui você conhece a história completa.
Que planta é essa
A mandrágora (Mandragora officinarum) é nativa da região do Mediterrâneo: sul da Europa, norte da África e Oriente Médio. Ela pertence à família das solanáceas, a mesma da beladona e da trombeteira, mas também do tomate e da batata. Tem folhas grandes rentes ao chão, flores roxas ou esverdeadas e frutos amarelos e perfumados. A parte famosa é a raiz, grossa e muitas vezes dividida, que pode parecer ter "braços" e "pernas".
Por que ela é tão perigosa
A planta inteira, principalmente a raiz, contém alcaloides fortíssimos: escopolamina, hiosciamina e atropina. Em pequenas doses, eles causam sono, delírio e alucinações; em doses maiores, coração disparado, convulsões e morte. Hoje essas substâncias só são usadas em remédios fabricados e com receita médica.
Não existe nenhum uso caseiro seguro da mandrágora: nem chá, nem banho, nem defumação, nem óleo para a pele. Em caso de ingestão, ligue para o SAMU (192) ou para o Disque-Intoxicação (0800 722 6001).
Um dos primeiros anestésicos da história
Justamente por causa desses alcaloides, a mandrágora foi usada como anestésico por mais de mil anos. O médico grego Dioscórides, no século I, descreveu o vinho de mandrágora dado aos pacientes antes de cortes e cirurgias. Os romanos, os médicos árabes e os medievais também usaram a planta assim, embebida em esponjas que o paciente cheirava. Como a dose era difícil de acertar, muitos não acordaram.
A lenda do grito
A lenda mais famosa diz que a mandrágora grita quando é arrancada da terra, e que o grito enlouquece ou mata quem o ouve. Já no século IV antes de Cristo, o grego Teofrasto contava que os colhedores traçavam três círculos em volta da planta com uma espada e cortavam a raiz olhando para o oeste.
Os bestiários medievais descreveram um ritual ainda mais dramático: cavar em volta da raiz, amarrar a planta a um cachorro faminto e chamá-lo de longe com um pedaço de carne. O cão puxava a raiz, ouvia o grito e morria no lugar do colhedor, que tapava os ouvidos com cera.
Na Idade Média também se dizia que a mandrágora nascia ao pé das forcas, por isso na Alemanha ela ganhou o apelido de Galgenmännlein, "o homenzinho da forca".
A mandrágora na Bíblia
No livro do Gênesis (capítulo 30), Rúben encontra mandrágoras no campo e as leva para a mãe, Lia. Raquel, que não conseguia engravidar, pede as mandrágoras e, em troca, cede a Lia uma noite com Jacó. Por isso, por séculos, a planta foi ligada à fertilidade e ao amor. No Cântico dos Cânticos (7:13), "as mandrágoras exalam o seu perfume" no jardim dos amantes.
Alraune, a guardiã da casa
Na Alemanha e na Europa Central, a raiz de mandrágora, chamada Alraune, era um tesouro de família. Ela era lavada em vinho, vestida com roupinhas, guardada numa caixa e "alimentada" aos sábados. Em troca, protegia a casa, trazia sorte nos negócios e fazia o dinheiro se multiplicar: dizia-se que uma moeda deixada com ela à noite apareceria em dobro de manhã. Como a raiz verdadeira era rara e cara, muitos charlatães esculpiam raízes de outras plantas, como a briônia, e vendiam como mandrágora.
Na literatura e na cultura
- Shakespeare cita a planta várias vezes. Em Romeu e Julieta, Julieta teme os gritos das mandrágoras arrancadas da terra; em Antônio e Cleópatra, Cleópatra pede mandrágora para dormir enquanto Antônio está longe.
- Maquiavel escreveu a comédia A Mandrágora (1518), em que uma poção é a desculpa para uma trapaça amorosa.
- No processo de Joana d'Arc (1431), os juízes perguntaram se ela guardava uma mandrágora. Ela negou.
- Em Harry Potter e a Câmara Secreta, os alunos replantam mandrágoras usando protetores de ouvido, eco direto da lenda medieval, e a planta vira remédio para quem foi petrificado.
A mandrágora na magia hoje
Na magia, a mandrágora é associada à proteção do lar, à prosperidade, à fertilidade e ao poder pessoal. Ligada ao elemento Fogo e ao planeta Mercúrio, é considerada uma planta "quente". Mas, por causa da toxicidade, a magia responsável usa a mandrágora só como símbolo: uma raiz seca guardada numa caixinha, longe de crianças e animais e manuseada com luvas, ou apenas uma imagem no altar.
Muitas bruxas modernas preferem substitutos seguros: raiz de angélica para a proteção, gengibre para a força e a prosperidade, lírio-florentino para o amor.
Atenção ao comprar
O que se vende como "mandrágora" no comércio esotérico muitas vezes é outra planta: a mandrágora-americana (Podophyllum peltatum) ou a briônia (Bryonia dioica), ambas também tóxicas. Na dúvida, trate qualquer raiz vendida com esse nome como venenosa.
Para refletir
A mandrágora mostra como a humanidade sempre misturou medo e fascínio diante do poder das plantas. Ela curou e matou, protegeu e condenou. Conhecer a sua história é também aprender a respeitar a natureza: honrar o símbolo e manter distância do veneno.
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